segunda-feira, 27 de abril de 2009

Fazendo xixi pelo cano

Embora pareça coisa muito complicada, essa de enfiar um canudo na ponta do pênis (ou no buraquinho da uretra, nas mulheres) e fazê-lo chegar até a bexiga para drenar a urina, não tem nada de difícil.
Eu mesma já fiz em mim e tenho pacientes (crianças), que fizeram em mim prá constatar que não tem nada de muito raro nisso tudo.
Lógico que depois eu fiz nelas, né?
Não é um procedimento dolorido, apenas um pouco desconfortável. Mas nada de dor.
E, com o tempo a pessoa acostuma e passa a fazer isso de olhos fechados, de verdade.
Mas porque temos que eliminar a urina???
Simplesmente porque nela só tem coisas das quais nosso corpo não precisa mais, e se ficar tudo isso por muito tempo armazenado, vai virar alimento para as bactérias.
A regra geral é: a cada 2 ou 3 horas a nossa bexiga deve ser esvaziada.
E essa regra deve ser seguida por todo mundo. Sem exceção, sob pena de problemas urinários futuros.
Então vamos à prática.
O cabra precisa primeiramente lavar as mãos. Não tem água nem sabonete?
Use um lenço umedecido, que funciona muito bem.
Daí faz o mesmo com os genitais. Vale o lenço umedecido de novo.
Depois é só ir introduzindo o cateter com um pouco de lubrificante pelo buraquinho do pênis ou da uretra, nas mulheres.
Aliás, nas mulheres, embora pareça complicado, é bem mais fácil: o orifício da uretra é o primeiro que nós temos e, mais abaixo dele vem a vagina.
Ficou confuso? Nada disso, é só introduzir o dedo médio na vagina, para fechá-la e, com o indicador e o polegar segura-se o cateter que vai sendo introduzido no orifício de cima, o que restou, certo?
Pelamordedeus que ninguém tá confundindo isso com o ânus, combinado?
De qualquer forma, antes de começar a aventura, pegue um espelho e explore as “partes baixas” com gosto.
Antes que eu me esqueça, nos homens, durante a introdução do cateter o pênis deve estar sempre perpendicular ao abdômen, ou seja, olhando prá frente, nunca para cima.
Se o cabra sentir uma leve resistência quando passou uns 10 cm do cateter, basta abaixar um pouquinho o pênis e continuar introduzindo que daí vai bem fácil.
É que nesse ponto existe uma parada meio sinistra chamada ângulo peno-escrotal, que pode ser facilmente vencida com essa manobra.
Quando o cateter chegar na bexiga a urina começará a sair pelo cateter espontaneamente.
A minha dica é posicionar-se frente ao vaso sanitário e já deixar a urinar cair direto.
Terminou tudo? Retire o cateter devagar, guarde os seus “documentos”, lave o cateter com água e detergente, enxágüe, seque e guarde prá próxima.
Puxa vida, mas isso é assim tão simples, que nem precisa de luva, antisséptico, seringa, UTI móvel nem nada?
É isso mesmo.
Toda pessoa que tem bexiga neurogênica costuma ter suas bactérias de estimação morando na bexiga, portanto a técnica não precisa ser estéril.
O risco para elas é quando a oferta de alimento para as bactérias (pela urina presa) é grande, quando a sua resistência diminui, ou quando as tais bactérias aumentam demais.
E isso pode ser evitado retirando aquela urina que não foi eliminada.
Se a pessoa conseguir fazer algum xixi espontaneamente, a indicação é sempre passar o cateter depois desse xixi.
É que quando a gente urina, sempre saem aquelas sujeiras que estão pelo caminho e o risco de infecção diminui bastante.
E essas pessoas terão sempre algumas bactérias morando lá, sem necessariamente causar infecção. Que nem nós temos bactérias na boca, que moram na superfície, mas não causam dano.
E que a gente mantêm controladas escovando os dentes e usando fio dental.
Em resumo, o cateterismo vesical intermitente limpo é, para a bexiga dessas pessoas, uma medida de proteção dos rins e de controle da população bacteriana.
Mas e os antibióticos?
Eles só devem ser tomados sob prescrição médica e quando as bactérias estiverem causando confusão: febre, urina escura e fedida, dor, urina presa, entre outros sintomas.
O equilíbrio no dia-a-dia pode ser garantido com a retirada da urina pelo tal caninho, com medidas básicas de higiene.
E prá comprar esse material todo?
Essa é a minha grande batalha profissional.
A legislação garante a todos o direito a esses materiais que, assim como outros, está longe de ser uma realidade: http://www.cedipod.org.br/dec3298.htm
Isso porque o sistema público de saúde ainda não conta com profissionais preparados para o cuidado dessas pessoas e nem com um programa de distribuição de material de forma organizada.
O cateter vesical pré-lubrificado de uso único, ou então cateter vesical + lubrificante, absorventes masculinos/femininos, dispositivos uretrais e coletores de urina, protetores de pele, e todos os breguetes necessários são direito de todos os que deles necessitam, e deveriam ser fornecidos nos serviços especializados.
Veja uma imagem de dois tipos de cateter vesical pré-lubrificado, daqueles ultra mega power extra bacanas:




Ficou com dúvida? Ok, vou falar mais disso no próximo post, tá bão?
P.S. Imagens da Coloplast do Brasil Ltda., valia bem um incentivo monetário, nénão??!!!

12 comentários:

  1. Muito interessante o post e as explicações, bem didático.
    Mas já colocaram sonda uretral em mim durante cirurgias e na hora da retirada doeu bastante. E uma vez fiz uma endoscopia da bexiga e foi um outro horror, Deus me livre, não sei como essas pessoas deficientes aguentam passar por isso várias vezes ao dia. E que história é essa de seus pacientes infantis colocarem sonda em você, pra verem que não tem nenhum problema? Moça, sua intenção pode ser boa, mas seu comportamento é totalmente inapropriado, num país mais sério você seria acusada de comportamento lascivo, exposição indecente,levaria um processo violento e perderia sua licença profissional. Onde já se viu uma coisa dessa? Duvido que alguma escola séria de enfermagem tenha te ensinado a fazer isso. Se eu tivesse um filho ou filha e uma enfermeira ou médico propusesse algo semelhante o tratamento terminava ali mesmo, estou pasma

    ResponderExcluir
  2. Sunkissed: com certeza deve ter doído muito, mesmo. Os catéteres que se coloca em cirurgias ou procedimentos diagnósticos são bem mais grossos, e sua introdução é dolorida, ao contrário dos que sugiro aqui, cujo calibre indicado é FR/CH 8.
    Quanto ao caso das crianças, trata-se de duas garotas com muito receio de serem cateterizadas, com as quais fizemos um longo trabalho com suas bonecas, juntamente com suas mães e na presença delas. As crianças aprenderam o procedimento, hoje se deixam cateterizar sem receio e não houve nenhuma conotação sexual nessa técnica, pois tudo foi realizado na presença e com o consentimento das mães. Realmente, há muita coisa importante que não se aprende na faculdade e, veja só que surpresa, quando tive oportunidade de discutir os casos com uma colega que é uma autoridade internacional na área, a mesma me revelou que também utilizou essa "dica" com uma criança, com bastante sucesso. Se isso não fosse feito com tanto sucesso e tranquilidade, certamente as garotas hoje teriam perdido sua função renal e não estariam se desenvolvendo tão bem como estão.
    Um grande abraço e bem vinda a este espaço,

    ResponderExcluir
  3. Gi, esse blog é um avanço incrível de serviço, de informação de qualidade, de desanuviar algo que as pessoas não fazem a menor ideia. Tenho relatos de pessoas que tiveram problemas seríssimos no sistema "mijatório" por não terem acesso a esse tipo de dados que vc tá fornecendo DE GRAÇA... Esse cidadão de "nome" sunkissed tá vendo "sexo" onde? Na boa, bicho, vc deve ter sido bolinado pelo padre e não sabe... vai se tratar.

    ResponderExcluir
  4. Padrinho Jairete, como dizem os antigos, ninguém chuta cachorro morto, certo?
    Então, eu tô bem vivinha...

    ResponderExcluir
  5. Entendi que não houve nenhuma conotação sexual, mas seu texto é confuso. Na explicação você cita o uso de bonecas pra demonstrar pras meninas o procedimento correto. Perfeito, isso é comum e aceitável. No texto do post, entretanto, dá a impressão que você, a terapeuta, ficou com a genitália a mostra e que as pacientes infantis fizeram o procedimento em você e que depois você fez o mesmo nelas. Isso, mesmo com a presença e o consentimento das mães, seria considerado procedimento impróprio em muitos países. Se não foi isso que aconteceu então você explique melhor, porque certamente isso é o que o texto dá a entender e foi isso que me deixou pasma. Sou judia, jamais tive contatos com padres bolinadores, e gostei do blog e das explicações. Peço perdão se ofendi alguem. Sunkissed

    ResponderExcluir
  6. Não há confusão alguma. O treino foi feito com bonecas, nos atendimentos e em casa. E foi feito com as crianças cateterizando suas mães em casa. Como as garotas ainda receavam serem cateterizadas por terem sido submetidas ao procedimento fortemente contidas em situações anteriores, elas me cateterizaram e, depois disso se deixaram cateterizar, pois foi um acordo. Tudo isso em atendimentos individuais, com suas mães presentes e sem nenhuma conotação sexual. Elas inclusive foram bastante orientadas e sabem descrever claramente que, em seus períneos há uma uretra, uma vagina e um ânus. Todos orifícios com funções e caminhos específicos, e entenderam perfeitamente a necessidade do procedimento. Hoje já estão maiores e eventualmente explicam para outras crianças a importância de tudo isso. Sabem que têm o risco grande de serem estomizadas, ou ainda, terem uma insuficiência renal e entrarem na fila dos transplantes. São crianças com lesões medulares congênitas graves, e que continuam sendo seguidas por nós. Tenho a certeza de que uma mãe que se vê num impasse desse, certamente lutará ao lado de sua filha para que a mesma sobreviva sem grandes sequelas. Em qualquer lugar do mundo. Obrigada pela visita ao blog, e sinta-se convidada para conhecer o meu trabalho. Será um grande prazer. Um abraço,

    ResponderExcluir
  7. José M. Dávila Neto4 de maio de 2009 11:04

    Nem tudo que é luz ilumina!
    Cada olhar vê um mundo diferente, cada viver tem lá seus sofrimentos e preconceitos. Vá em frente e não perca o foco dessa brilhante idéia do Blog.
    Amor,

    José

    ResponderExcluir
  8. Gi (permite a intimidade?), posts fantásticos esses no seu blog! Incrível como eu tinha perdido tudo isso até agora...

    ResponderExcluir
  9. Christiani Freitas disse...minha filha nasceu com mielomeningocele,só tem um rim funcionando faço cateterismommais sempre tem a bactéria Esckirichia Coli meu marido entra em pãnico,nos exames que vem realizando é normal?fica uma pergunta?

    ResponderExcluir
  10. Chris, entre em contato comigo por tel ou emeio e dê mais detalhes, caso vc queira alguma ajuda e eu possa fazê-lo. Mas preciso de mais informações. Beijo e obrigada pela visita,

    ResponderExcluir
  11. Cai nesse blog nem sei pq, mas tenho que dizer que cada dia me surprendo mais e mais com a amplitude da enfermagem. Minha filha faz esse curso unicamp, e a cada dia ela me desvenda possibilidades que eu nunca imaginei que fosse da alçada da enf. Pra mim era aquela coisa básica mas hoje vejo que eu deveria ter feito tbm. Parabens.

    ResponderExcluir
  12. eu adorei a forma como vc descreveu o uso do cateter, eu tenho uma filha de 11,e faco o cateterismo nela ainda. pra mim, normal, nao è nenhum bicho de sete cabecas e nem devemos fazer disso um drama, hora..è como colocar um OB, sò q em outro buraquinho. sua forma de informar foi bastante objetiva , sem frescuras. eu estou numa dificuldade de fazer com que minha filha faca o cateterismo sozinha, que alias ja era pra estar fazendo...mas...estamos a caminho disso ja em mente. um abraco, vc è dez Gisele!

    ResponderExcluir