Encerrando, ao menos por enquanto, esta etapa de falar de feridas, vou contar um "causo" que rolou comigo semana passada e me deixou bem chateada.
Uma das pacientes que eu estou atendendo não tinha condições de ir a clinica para TODOS os curativos e combinamos que ela iria uma vez por semana, quando eu avaliaria, faria o necessário e orientaria o cuidador para a continuidade do tratamento no domicílio.
Dito e feito, mas o cuidador tinha um pouco de nojo e mal olhava para o que eu fazia, concordando com tudo. Sim, entendi como faz.
Eram três feridas na perna, duas em fase final de cicatrização, nas quais usei um produto para manter o leito da ferida na umidade necessária. E na pior eu coloquei uma cobertura com alginato de cálcio + prata, pois era muito exsudativa e estava colonizada. Resumindo: babava muito e tinha muitas bactérias morando ali, mas ainda sem infecção.
Uns quatro dias depois, outra pessoa da família me liga dizendo que tinha piorado e me contou os detalhes. Orientei para que procurassem o cirurgião vascular que também acompanhava, pois seria o caso de retomar a antibioticoterapia.
No retorno eu vejo um curativo todo atrapalhado, nada a ver com o que eu prescrevi. Botaram a cobertura de uma na outra, por baixo, uma mixorda do cão!
O que desencadeou o agravamento da ferida, sem dúvida.
A cuidadora toda sem graça me disse que achou que era assim que deveria fazer e, que ainda por cima, o médico elogiou o curativo e os produtos utilizados, tudo de primeira linha. E passou o antibiótico, claro!
Eu fiquei rindo por dentro, pensando com meus cadarços acerca da onipotência do saber do cidadão que, prá num descer do salto, passou pelo ridículo de elogiar algo que mal conhece.
Senti um pouco de vergonha alheia, confesso.
Esse imbroglio todo é para dizer o seguinte: se você for a uma loja de produtos cirúrgicos vai encontrar zilhões de coberturas para feridas. Cada uma com uma propriedade, que nem remédio em farmácia.
Para usar qualquer uma, fale com um especialista. Caso contrário, pode piorar o quadro.
Para os profissionais, fica a dica: depois de 25 anos de estrada, a gente faz coisa errada sim. Afinal de contas, se o cuidador num fez direito em casa, é porque eu não soube orientar adequadamente.
E para aqueles que são pegos de surpresa com alguma nova tecnologia, a velha fórmula: ninguém tem condições de saber TUDO sobre TODOS os temas. E não é vergonha dizer que não conhece e que vai se informar melhor para poder opinar. Ao contrário, isso mostra ao paciente que a gente é de verdade.
Mas que num é fácil, lá isso não é.
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terça-feira, 9 de março de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Buzanfa prejudicada
A pedido de Jairo, meu bródi, escrevi um post sobre feridas pro blog dele e que, depois de doado, meu chapa mui gentilmente, me deixou usar aqui.
A coisa começa assim: quando a gente tem a sensibilidade normal, mudamos de posição constantemente, sem que nos demos conta.
Fazemos isso no piloto automático, descruzando pernas, levantando uma banda da bunda da cadeira, chacoalhando as pernas, e por aí vai.
Prestenção que você faz isso todo o tempo, sem perceber.
Com a sensibilidade do tato alterada, como acontece em várias deficiências ou lesões neurológicas, essa percepção para mudar de posição não acontece, e a pessoa fica horas/dias/meses do mesmo jeito, se alguém não auxiliar na mudança, para aqueles que também tem a mobilidade prejudicada.
Se isso acontecer, os pequenos vasos (artérias e veias) ficam comprimidos entre as saliências ósseas e a cama, deixando de levar sangue aos tecidos. Isso ocasiona a morte das células.
Tecido morto para o nosso corpo é coisa estranha, ele só reconhece coisas vivas e daí o negócio é botar para fora.
Está iniciada a "úlcera por pressão", que recebe esse nome justamente para que se lembre a sua origem. Antigamente chamava-se escara, hoje o nome mudou.
Começa sempre com uma vermelhidão que não desaparece quando se comprime levemente a pele, esse é o estágio I. Pode botar fé que aí a pele já morreu, abrir tudo é só uma questão de tempo.
Estágio II é quando tem perda de tecido de pequena profundidade, atingindo somente as camadas superiores da pele. No estágio III há o comprometimento de toda a pele e, no IV há perda de músculos e pode chegar aos ossos.
Ou seja, o cabra chega no pronto socorro todo estropiado, a equipe vai cuidando de fazer diagnóstico, radiografias, tomografia, imobilização, cirurgia, curativos, medicamentos, estabilizar o caboclo e todo mundo deixa ele bem quietinho, sem mexer.
Quando passa o furacão, se aparecer uma alma sensível e competente, vão começar a mudar de posição na cama e... surpresa!!!
Tem uma baita feridona na buzanfa do cidadão.
E não é só aí, não. Onde tiver pele sendo comprimida por uma proeminência óssea pode acontecer uma úlcera por pressão, até na cabeça.
Simples assim.
Vamos tratar? Prá começar, mudar de posição a cada duas horas, religiosamente.
Isso quer dizer virar para um lado, ficar duas horas. Depois virar para o outro, mais duas.
Depois de bruços, outras duas horas.
E de costas, mais duas horas.
Ou seja, somente a cada 6 horas (se num errei nas contas) vai haver pressão na mesma área novamente.
Se estiver sentado na cadeira de rodas, tem que fazer a “descompressão isquiática”, ou push-up: a cada 30 minutos, levantar a buzanfa e perninhas sustentando-as nos braços, pelo máximo tempo que conseguir.
Sem isso, pode baixar gzuis que a ferida num fecha, pois faltará o principal: estradas livres (vasos sanguíneos) para chegar nutrientes nas células.
Segunda coisa: alimentação rica em proteínas e vitaminas, com suporte profissional. Caso contrário não haverá nutrientes suficientes para criar pele onde precisa ser cicatrizado. E pode comer de tudo, nenhum alimento é proibido por causar feridas, pelamordedeus!!!!!
Prá finalizar, sugiro a contribuição de um profissional enfermeiro com conhecimento especializado em feridas, o estomaterapeuta (uma lesada que nem eu, craro), para avaliar o cidadão e a lesão e indicar a melhor cobertura a ser colocada ali, além da limpeza adequada.
Não dá prá chutar nem botar qualquer coisa, pois isso pode atrapalhar tudo.
E jamais deixar aberto, botar prá tomar sol, utilizar produtos caseiros, ervas e quetais.
Ah, e o sujeito tem que estar sempre sequinho, limpo, sem fezes ou urina, senão vira um caos.
Esse é o grande nó da coisa, pois sempre que começamos um tratamento, temos que tirar fraldas sujas de urina e fezes, tudo colado na ferida.... retrocesso geral.
Semana que vem continuo falando de perebas, esse assunto tão sedutor.
A coisa começa assim: quando a gente tem a sensibilidade normal, mudamos de posição constantemente, sem que nos demos conta.
Fazemos isso no piloto automático, descruzando pernas, levantando uma banda da bunda da cadeira, chacoalhando as pernas, e por aí vai.
Prestenção que você faz isso todo o tempo, sem perceber.
Com a sensibilidade do tato alterada, como acontece em várias deficiências ou lesões neurológicas, essa percepção para mudar de posição não acontece, e a pessoa fica horas/dias/meses do mesmo jeito, se alguém não auxiliar na mudança, para aqueles que também tem a mobilidade prejudicada.
Se isso acontecer, os pequenos vasos (artérias e veias) ficam comprimidos entre as saliências ósseas e a cama, deixando de levar sangue aos tecidos. Isso ocasiona a morte das células.
Tecido morto para o nosso corpo é coisa estranha, ele só reconhece coisas vivas e daí o negócio é botar para fora.
Está iniciada a "úlcera por pressão", que recebe esse nome justamente para que se lembre a sua origem. Antigamente chamava-se escara, hoje o nome mudou.
Começa sempre com uma vermelhidão que não desaparece quando se comprime levemente a pele, esse é o estágio I. Pode botar fé que aí a pele já morreu, abrir tudo é só uma questão de tempo.
Estágio II é quando tem perda de tecido de pequena profundidade, atingindo somente as camadas superiores da pele. No estágio III há o comprometimento de toda a pele e, no IV há perda de músculos e pode chegar aos ossos.
Ou seja, o cabra chega no pronto socorro todo estropiado, a equipe vai cuidando de fazer diagnóstico, radiografias, tomografia, imobilização, cirurgia, curativos, medicamentos, estabilizar o caboclo e todo mundo deixa ele bem quietinho, sem mexer.
Quando passa o furacão, se aparecer uma alma sensível e competente, vão começar a mudar de posição na cama e... surpresa!!!
Tem uma baita feridona na buzanfa do cidadão.
E não é só aí, não. Onde tiver pele sendo comprimida por uma proeminência óssea pode acontecer uma úlcera por pressão, até na cabeça.
Simples assim.
Vamos tratar? Prá começar, mudar de posição a cada duas horas, religiosamente.
Isso quer dizer virar para um lado, ficar duas horas. Depois virar para o outro, mais duas.
Depois de bruços, outras duas horas.
E de costas, mais duas horas.
Ou seja, somente a cada 6 horas (se num errei nas contas) vai haver pressão na mesma área novamente.
Se estiver sentado na cadeira de rodas, tem que fazer a “descompressão isquiática”, ou push-up: a cada 30 minutos, levantar a buzanfa e perninhas sustentando-as nos braços, pelo máximo tempo que conseguir.
Sem isso, pode baixar gzuis que a ferida num fecha, pois faltará o principal: estradas livres (vasos sanguíneos) para chegar nutrientes nas células.
Segunda coisa: alimentação rica em proteínas e vitaminas, com suporte profissional. Caso contrário não haverá nutrientes suficientes para criar pele onde precisa ser cicatrizado. E pode comer de tudo, nenhum alimento é proibido por causar feridas, pelamordedeus!!!!!
Prá finalizar, sugiro a contribuição de um profissional enfermeiro com conhecimento especializado em feridas, o estomaterapeuta (uma lesada que nem eu, craro), para avaliar o cidadão e a lesão e indicar a melhor cobertura a ser colocada ali, além da limpeza adequada.
Não dá prá chutar nem botar qualquer coisa, pois isso pode atrapalhar tudo.
E jamais deixar aberto, botar prá tomar sol, utilizar produtos caseiros, ervas e quetais.
Ah, e o sujeito tem que estar sempre sequinho, limpo, sem fezes ou urina, senão vira um caos.
Esse é o grande nó da coisa, pois sempre que começamos um tratamento, temos que tirar fraldas sujas de urina e fezes, tudo colado na ferida.... retrocesso geral.
Semana que vem continuo falando de perebas, esse assunto tão sedutor.
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